Sou o Vento

terça-feira, 12 de setembro de 2017

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Pensar no que eu seria caso não fosse humana sempre foi ato recorrente no meu imaginário. Divertido me colocar em outras vidas e sonhar com outras formas de ser. Quando criança, tive passarinhos de estimação – que, logo concluí, não deveriam permanecer presos em gaiola. E quando se foram dessa existência, eu não quis ter mais pássaros presos. Só quis admirar e amar os que eram soltos por aí. E ali decidi que, não fosse humana, seria eu passarinha. Pra voar, ir longe, ser leve e delicada, vivaz e colorida, para cantar. Quem nunca ouviu o canto de um Blackbird, que conheci nas Primaveras em que vivi na Eslováquia, não sabe qual é a voz pura da natureza. Mas isso pode ser assunto pra outro dia.

As resoluções infantis crescem e amadurecem e, não sei se por conta dos anos, não sei se por causa da vida e de suas lições, por conta da vontade de ser diferente ou mesmo pela abertura da alma (aos poucos, aqui tem chão ainda), eu me vi outra coisa desde jovem - se não tivesse nascido o que chamam de gente humana. Não seria mais um pássaro, embora continuasse amando a idéia. Não seria um animal.

Eu seria o vento. Como gostaria de ser.

O vento? O vento, que não tem sexo nem cor, nem nome próprio, nem endereço, nem mãe ou pai, irmãos ou filhos, nem idade, nem de onde e nem para onde? Sim, o vento – porque ele pode, de maneira simples, ser muito mais do que todos esses paradigmas humanos.

O vento é dos sentidos. Você o vê nas árvores balançando as folhas, nos cabelos, secando as roupas do varal, atrás de corredores ou veículos velozes, sob as asas dos pássaros e dos aviões. Você pode ouvi-lo dobrando as esquinas, uivando pelas janelas ou deslizando livre junto às ondas do mar, fazendo soar sinos e mensageiros (do vento!) nas varandas. Ele traz aromas, fragrâncias e memórias olfativas, transportando os cheiros e despertando vontades ou arrepios. Você pode sentir o vento. Tocar na força dele com as mãos, sentir sua chegada nas bochechas e cabelos, se refrescar quando tiver calor ou fugir dele quando sentir frio.

E o vento faz tudo isso sendo transparente. O vento é leve no peso, mas pode ter força no impacto, ou pode ser brisa suave. O vento é livre! Não tem amarras nem destino fixo; ele passeia por todos os lugares e conhece todas as pessoas, não se prendendo a nenhuma. O vento é constante, ele existe, ele está, ele vai e volta, é presente. Presente, sem ter tempo definido, ainda assim.

O Fernando Pessoa soube definir muito bem: “Às vezes ouço passar o vento. E só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.”.

Já que não nasci vento, só de ouvi-lo passar, vale a pena estar aqui.

3 comentários:

Carol Gutmann disse...

Que lindo Cla!!

Clarissa Azevedo disse...

Obrigada por ler, Carol!!

Daniel Person disse...

Que orgulho, linda! Love you!